Vícios

Luiz de Souza

O astral inferior está repleto de espíritos que adquiriram vícios, quando encarnados, e na situação em que se encontram, dispõem de um só meio de satisfazê-los: é o de se encostar aos seres encarnados, também viciados, para junto deles, em ação vampiresca, se saciarem, associando-se intimamente os seus corpos físicos e os seus sentidos.

Assim, o que foi jogador inveterado põe-se junto à mesa do jogo, encostado àquele por quem nutre maior simpatia, passa a intuí-lo, para que faça os lances que lhe aprazem, e "ruge", enraivecido, quando as intuições não forem captadas como deseja. Outros espíritos, igualmente viciados no jogo, passam a influenciar outros jogadores encarnados, e a peleja astral em torno deles segue renhida, estimulada por impropérios e imprecações. As figuras dos espíritos do astral inferior costumam ser de repelente aspecto, vítimas dos pensamentos que acalentam, engendrados na lama pestilenta do vício.

Idêntico fenômeno se opera com os espíritos do astral inferior que, quando encarnados, foram alcoólatras ou se sentem ressequidos e com um desejo incontrolável de ingerir bebidas fortes e embriagantes, a que se acostumaram, e, para satisfazer esse desejo, se apegam aos ébrios do plano físico e de tal forma conseguem justapor o seu corpo astral ao corpo físico do encarnado, que passam a sentir, como se encarnados estivessem, o sabor do álcool e o efeito atuante da bebida ingerida. Deste modo se satisfazem e continuam alimentando o vício.

Assim também acontece com os que fumam ou se entregam a qualquer outro vício. Há vícios maiores e menores, mas são sempre vícios. Os espíritos viciados do astral inferior estão sempre próximos dos encarnados, à procura daqueles que possuam vícios iguais aos seus. Os que não têm vícios não lhes interessam, ficando, assim, livres dessa péssima assistência. Por aqui se vê quanto os seres encarnados, possuidores de vícios, estão expostos a um duplo malefício: o de ordem material e o de ordem moral, ficando sujeitos não só à ação perniciosa e destruidora da saúde e da resistência física, como a receberem as contaminações de duas origens de obsessores, seja pela acumulação de fluidos deletérios, seja pela ressonância de vibrações inferiores.

O viciado é, pois, um pólo de atração das forças inferiores; ele as alimenta, as mantém em torno de si, recebe as suas intuições e acaba modificando o seu modo pessoal de ser para tornar-se um reflexo delas, em suas manifestações.

O vício é um dos promotores do suicídio lento, por contribuir, direta ou indiretamente, para o encurtamento da vida, uns atingindo frontalmente a estrutura orgânica do indivíduo, outros corroendo a alma e produzindo manchas no perispírito, que só no curso de outras vidas irão desaparecer.

O viciado, de um modo geral, não escapa ao estágio no astral inferior, após a desencarnação, por estar o seu corpo astral impregnado de efeitos do vício e só no astral inferior existir formas vibratórias suficientemente baixas para absorver tais efeitos, o que se dá num tempo mais ou menos longo, conforme a natureza do vício, a sua intensidade e os males que produziu.

O vício é, pois, um hábito pernicioso que leva o espírito a sofrer os danos morais e físicos dele decorrentes, com os quais muito retarda a sua evolução. A permanência de forças astrais inferiores junto à pessoa do encarnado predispõe-na a adquirir manias, a contrariar os bons princípios, a indispor-se com terceiros, a perder a capacidade de ação própria de pensar e agir com independência, a tornar-se intolerante e enfadonha, deixando escapar as melhores oportunidades da vida. Numerosas infelicidades que poderiam ser evitadas, ocorrem na vida, em conseqüência da ação funesta do astral inferior. Logo, é profundamente condenável todo e qualquer costume que proporcione contato com esses espíritos infelizes da baixa camada atmosférica, que não são visíveis aos olhos da carne, mas que são tão reais como os demais seres encarnados.

O vício alquebra o vigor espiritual, pela razão de sintonizar-se com correntes contrárias, impedindo, assim, que tal vigor se manifeste com a sua maior potencialidade. Quem não estiver ao lado do bem, está, infalivelmente, ao lado do mal, porque não há ponto intermediário neutro para a pessoa se colocar no torvelinho da vida; como o vício não está do lado do bem, por motivos óbvios, está do lado do mal, e, conseqüentemente, também está do mesmo lado quem estiver submetido a ele.

Combater o vício é, pois, um dever cristão, que precisa ser reconhecido e aplicado, sem condescendência. Ele se infiltra, traiçoeiramente, nas criaturas desprevenidas que não se dão ao hábito de raciocinar sobre seus riscos e inconvenientes, apoderando-se delas, é estas passam a defendê-lo, depois, para justificar o seu avassalamento.

Olhando o aspecto econômico da questão, atua o vício como fator de desperdício. Ao tomar-se, para exemplo, o vício do fumo, constata-se que o dinheiro gasto numa existência humana com esse vício, levando-se em conta as fórmulas normais de capitalização e admitindo-se que, diariamente, fosse depositada, em organização bancária, a importância dispendida com ele e seus acessórios, daria em média por pessoa fumante, o necessário para adquirir uma propriedade, ou seja, uma residência para os seus herdeiros. É um valor econômico apreciável que cada viciado no fumo queima, diariamente, em prejuízo da família e, sobretudo, da saúde.

Depois de desencarnado, pode o indivíduo saber — e saberá na certa — exatamente quanto desperdiçou durante a vida terrena com o vício que manteve, já que todos os atos, por menores, por mais insignificantes que sejam, ficam indelevelmente registrados. Verá então quais os benefícios que deixou de prestar aos seres seus afins ou colaterais dependentes, pelo desperdício causado pelo vício. Os ricos, que são mantenedores de vícios, hão de ver que não estiveram à altura de fazer bom uso da riqueza, e poderão preparar-se para uma nova existência de pobreza, quando melhor verificarão quais as aplicações que devem ser dadas às riquezas.

O indivíduo que gasta os seus recursos com o vício não tem o direito de reclamar que ganha pouco e que o dinheiro não chega.

Uma vez que na senda da evolução cada um deve esforçar-se por não ter apego às coisas terrenas, de modo algum há de andar jungido ao vício, que é o mais lamentável de todos os apegos.

As pessoas fúteis têm uma inclinação acentuada pelo vício, e quando não se deixam arrastar pela atração do ópio, da cocaína, da maconha, entregam-se à do fumo, muitas vezes por parecer-lhes um hábito elegante. De elegantes desse tipo está repleto o astral inferior.

Estas advertências objetivam alertar o espírito dos bem intencionados para que meditem sobre o caso, e se disponham a preparar dias melhores para o futuro, nos quais não devem constar registros de práticas viciosas. Para entrar no caminho da espiritualidade, uma das condições é a de poder sentir repugnância pelo vício, desprezá-lo, mantendo-o à distância. A aversão pelo vício é uma questão de princípio, de formação moral, de compreensão espiritual.

Todos os acontecimentos na vida têm a sua origem e são dependentes da lei de causa-e-efeito. Os vícios são o efeito, e a causa é a falta de conhecimento da vida espiritual.

Os vícios terão de desaparecer com a evolução dos seres; eles atestam, enquanto prevalecem, condições deficientes no estado evolutivo. É indispensável que a criatura reconheça essa inferioridade, antes de poder desejar a sua extinção. A campanha contra o vício não poderá esmorecer. Aqueles que estiverem seguros de que o vício constitui um erro de conduta na Terra, devem opor-se à sua sobrevivência, sempre que a oportunidade se apresente. A toda criatura assiste o dever de combater os males, e o vício é um deles. Não se pense, egoisticamente, que o mal que não nos atinge não nos deverá preocupar. Todos somos membros da grande família humana, e é preciso zelar pela sua integridade.

 

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