Os filhos

Luiz de Souza

Os filhos também têm na vida a sua parcela de responsabilidade e ação bem definidas, mesmo sendo menores. Logo que começam a caminhar, devem dar os primeiros passos na direção da ajuda e da ordem. Nessa idade, podem transportar miudezas, juntar objetos do chão, chamar alguém, obedecendo ao mando. Assim se desperta neles a noção de utilidade, de serviço, de colaboração.

À medida que crescem, ainda pequeninos, é a ordem que tem de entrar no plano das cogitações. Não deixar que atirem ao solo as peças do vestuário, que desarrumem, sem arrumar, que façam os outros de seus escravos. As crianças voluntariosas querem impor, quando encontram frouxidão, e às vezes se estragam com o demasiado enlevo pelas gracinhas que fazem.

A educação dos filhos é uma arte difícil de executar e, por isso, grandes falhas morais que se observam nos adultos, têm a sua origem na ineficiência da orientação inicial.

Muita coisa se deixa passar sob a alegação de que às crianças tudo se desculpa. Desculpar não deve significar que se dê pouca importância aos atos reprováveis. Desculpar pode ser não aplicar castigos, mas não se pode dar de ombros diante de falhas cometidas. As tendências más ou boas, trazidas das vidas anteriores, manifestam-se desde cedo, e devem ser analisadas.

Os espíritos que encarnam em meio civilizado são geralmente almas velhas, milenárias, com grande número de reencarnações, nas quais colheram, sucessivamente, as tendências que demonstram. É recomendável não esquecer esse aspecto do problema, que deve orientar a ação educativa do adolescente.

Não sabem muitos que muitos erros que se revelam estão entranhados, profundamente, na natureza espiritual do pequeno ser, e a extirpação deles requer engenho, paciência, raciocínio e muita compreensão.

Todos escolhem, de antemão, as provas que desejam suportar na Terra, sabendo quais são aquelas que melhor atendem às imperiosas necessidades da evolução individual.

Essas provas variam de pessoa para pessoa, ou seja de espírito para espírito, e, como é sabido, quanto maior for a carga suportável tanto mais rápida será a ascensão a planos mais elevados, onde a felicidade acena, de maneira fascinante, razão porque os seres se dispõem, na maioria, a enfrentar experiências aqui neste campo de luta e dor, no máximo das suas possibilidades.

Os filhos exigem sempre de seus pais uma grande dose de abnegação, trabalho, esforço, renúncia, sacrifício, dedicação, cuidado. Sem essa submissão pessoal e obrigatória, deixam os pais de pagar uma dívida seriamente contraída, ou de resgatar um compromisso assumido, e as conseqüências aflitivas virão depois, acrescidas dos reflexos dos danos originados com a má educação adquirida pelos filhos moralmente desamparados.

Parte da responsabilidade nos desmandos dos filhos na Terra recai sobre os pais, razão pela qual devem estes evitar a desatenção, a indiferença e o descaso na educação da prole. Muito embora seja a tarefa cansativa ou mesmo estafante, nem por isso pode haver condescendência com o rigor das obrigações.

Há crianças peraltas, irrequietas, plenas de energia, arteiras, sôfregas, que não podem ficar um momento sequer fora da vista da pessoa acompanhante para não fazerem uma travessura perigosa. É de avaliar-se, pois, a preocupação das mães por filhos tão irrequietos. A mãe esclarecida, porém, tem mais força moral para suportar o embate, para se conformar com a partilha, sabendo que a alguém deveria ser confiada a tarefa que lhe coube.

Há maior merecimento para a mãe que souber recuperar um filho nascido com débitos de extrema gravidade, do que para outra cujos filhos pouco têm que resgatar. Verdade é que a primeira mais necessita do que a segunda, para a sua evolução, daquela prova, pela qual a outra já devia ter passado.

Tudo na vida está bem pensado e bem distribuído. Embora seja difícil, às vezes, compreender como um fato ocorrido, aparentemente mau, possa redundar em bem, na realidade isso se dá, porque acima dos horizontes humanos está a ilimitada visão astral.

Filhos ansiosos de progresso, inteligentes, dinâmicos, varonis, que poderiam ter as suas reservas de energia aproveitadas, com grande rendimento, no caminho da espiritualidade, por falta de orientação inicial dos pais sem esclarecimento ou insuficientemente esclarecidos, seguem outro rumo, atraídos pelo mundanismo imperante, tornando-se servos do dinheiro, do sexo, da ostentação, do luxo, da vaidade, e perdendo, por esse modo, os anseios latentes que trouxeram. São numerosíssimos os casos dessa espécie.

As mães, que estiverem fazendo todo o possível para dar aos filhos a assistência espiritual que eles precisam, não se devem afligir quando não atingirem a remodelação total, nem mesmo a que aspirem, porque as transformações são paulatinas e levam, em certos casos, algumas etapas ou existências para se operarem radicalmente.

O importante, porém, é que em cada encarnação se faça o máximo em favor do delinqüente em potencial, para que as suas tendências de má índole sejam substituídas pelas boas ações, pelos bons pensamentos, pelo sentimento de fraternidade.

Nas brigas entre irmãos, já se pode, quando ainda pequenos, analisar as suas causas, observando como cada um encara o problema, que dose de egoísmo ou de vaidade está influenciando a discussão. A razão pode estar dos dois lados, ou num deles, ou em nenhum dos dois.

É preciso que pessoa de maior entendimento esclareça o assunto, destruindo ressentimentos, evitando ofensas e fazendo prevalecer o espírito desportivo de franca camaradagem.

As crianças precisam aprender que, acima dos socos e pontapés, dispõe o homem de inteligência, lógica, capacidade de argumentação racional, com que se resolvem todos os problemas. A arma superior é a razão. Ela precisa ser descoberta com o raciocínio bem trabalhado, e do lado em que estiver, estará a solução do problema, o ganho de causa, a justiça que todos precisam respeitar. Bom será que os adolescentes aprendam que nada se deve procurar resolver pela violência, pela força bruta, pois estas asseguram uma vitória apenas passageira que traz, quase sempre, uma série de outros agravos de difícil solução.

A falta de compreensão desta verdade, na infância, faz com que surjam adultos déspotas, briguentos, intolerantes, violentos, dispostos a resolver as menores divergências por processos físicos da mais recriminante atuação.

Há pais inconscientes que insuflam os seus filhos a resolver as suas pendências na rua, recomendando-lhes que não tragam desaforo para casa; os valentões, então, se ufanam disso. Todas as pelejas musculares, agressivas, insolentes provocam ódio e malquerença, e isso é uma inferioridade de sentimento difícil de anular.

A falta de contenção dos impulsos que conduzem às vias de fato, generaliza esses desfechos de luta física, de esforço, de desagravo e de vingança. Os agressores devem ser contidos à força, como se estivessem dominados pela loucura, o que na realidade se dá, porque se encontram, naquele momento, debaixo da ação de espíritos obsessores, e precisam então ser tratados, humanamente, como perturbados, com energia, sem se deixar enredar pelas maléficas correntes que envolvem os que estiverem operando em seu favor.

As guerras são provocadas e alimentadas por indivíduos que, quando crianças, resolveram as suas contendas a murros, e não tiveram nenhum preparo espiritual feito no sentido de eliminar antagonismos à luz da razão, do bom-senso, do raciocínio e com sentimento cristão. O indivíduo se superioriza não fazendo uso da força física para castigar, como fazem os verdugos. Toda ação que fomentar o sentimento de ódio é anticristã e, portanto, condenável.

Não é preciso discutir acaloradamente, quando desse calor saem muitas vezes termos impensados e palavras ofensivas. A opinião alheia deve ser respeitada, e ninguém tem o direito de querer impor a outrem o seu ponto-de-vista. A educação deverá estar voltada sempre para o lado do acatamento, da consideração e da fraternidade.

A educação cristã não dispensa, de forma alguma, o procedimento pacífico e lhano, as atitudes nobres e dignas e a ação consciente e controlada. O Nazareno nunca ofereceu a menor reação física contra os que a apedrejaram. Por meios pacíficos, Gandi levou a Índia à sua aspirada independência. O grande Duque de Caxias tornou-se o maior dos generais brasileiros pela sua índole de apaziguador.

Ensinar cristianismo às crianças não é fazê-las decorar ladainhas, mas instruí-las sobre as boas ações, em cada dia, em cada hora, em cada instante, e fazendo-as amar umas às outras, em gestos espontâneos de cortesia, em atos de fidalguia e demonstrações de solidariedade. Embora não se consigam ajustamentos ideais dentro desse propósito, em cada existência qualquer conquista nesse terreno representa uma vitória.

Se todos os pais se empenharem na disposição firme de algo fazer em prol desse desiderato, haverá uma soma considerável de êxitos, que se multiplicarão pelo futuro. Cuide, pois, cada um da sua pequena parte, lembrando-se de que de pequeninas gotas são formados os oceanos.

Procurem as crianças ser fortes, física e moralmente; exercitem os seus músculos, aprendam a defender-se com a melhor técnica, e nunca façam uso desse poder e conhecimentos adquiridos, senão para dominar o contendor mal-educado, imobilizá-lo sob uma ação irradiativa benéfica e cristã. O infeliz que se exaspera, que se inflama de rancor, que não se pode dominar, precisa, urgentemente, de apoio moral e de auxílio espiritual a fim de que se possa livrar de uma angustiosa situação psíquica.

Só os que estudam espiritualismo sabem de que maneira precisam agir nessas delicadas circunstâncias. No entanto, tudo deve ser feito para que, desde pequeno, o ser humano se habitue a considerar o seu companheiro, o seu colega, o seu amigo, com igualdade de direitos perante o Todo, e digno do melhor trato, idêntico àquele que deseja receber.

Nunca é demais insistir que os bons como os maus hábitos, adquiridos em criança, acompanham o ser como uma sombra acolhedora ou funesta durante a existência. Crianças bem educadas, inimigas de brigas, incapazes de proferir impropérios, habituadas a se controlarem, respeitadoras, atenciosas, prestativas e aplicadas, darão adultos de grande valor moral e espiritual, com capacidade para intervir, vigorosamente, na evolução da grei humana.

É preciso plasmar o caráter da criança dentro dos bons exemplos que os pais precisam oferecer. Daí a razão pela qual a educação não pode ser só de palavras que não encontrem apoio nos exemplos pessoais dos preceptores. Precisa, cada um, viver, o melhor possível, racionalmente preso ao sentido das responsabilidades que lhe cabem.

O ideal é que cada um se torne um bom cristão, modelando o seu viver nos postulados do Mestre Nazareno, reavivados no Racionalismo Cristão por Luiz de Mattos. Cumpram-se estes preceitos, e teremos a transformação do mundo, a abolição da maior parte do sofrimento e a melhoria da vida no plano material.

As crianças de hoje governarão o mundo de amanhã, e é preciso que se preparem para assumir, conscientemente, essa responsabilidade, na posição que lhes couber. Tenham por norma, por uma questão de princípio e de honra, agir pacificamente nas ocasiões mais tumultuosas, para que se forme o hábito de serenidade, de segurança e de controle.

Uma vez difundida tal disposição, criar-se-á uma nova mentalidade edificante, promissora e renovadora. Os seres humanos, de posse dessas novas armas, serão hercúleos, e o mundo se curvará, submisso, à nova técnica cívica de imperar por meio do intelecto, da razão e da força espiritual.

As meninas têm a sua missão distinta; precisam conhecer os trabalhos de agulha, da culinária, da boa apresentação do lar, o qual deve ser atraente e convidativo, mesmo quando pobre. Devem apresentar-se com boa educação e instrução, para representarem o seu papel no cenário da vida com naturalidade, arte e bom gosto.

Encarem as jovens a vida, humanamente, não vendo no seu realismo qualquer forma dramática, antes procurando notar beleza e encanto existentes em toda a obra do Criador. As meninas precisam encontrar compreensão por parte de seus irmãos, ser tratadas com a delicadeza rivalizante da sua natureza sensível e fisicamente frágil. O ser feminino espera que o masculino o ampare, o defenda, o proteja, honradamente, nos vendavais da Terra, e nunca deverá ficar desiludido quanto a esse dever, que deve partir dos seus próprios irmãos.

Também se precisa esforçar por merecer a melhor das atenções, elevando, o mais alto possível, a sua conduta de mulher, a sua feminilidade, a sua ocupação específica, a sua posição predominante dentro do lar. Nenhuma razão deve existir para modificar essa norma. Desde pequenas, devem as meninas começar a despertar esse sentido, com o auxílio de suas mães, para que nada se perca da planificação de suas vidas.

As mulheres são todas damas do lar, que ornamentam e alegram com a sua presença. São elas que manipulam as flores nos vasos, e os arrumam, enfeitam, limpam e perfumam; são elas que vibram as cordas harmônicas do som, com a música de instrumentos ou com a sua voz; são elas que amenizam, inspiram, agradam, sorriem e dão à vida o colorido gracioso da mãe espiritual, por serem elas que trazem ou podem trazer ao homem felicidade, paz, bem-estar, aconchego, repouso, conciliação, estímulo, consolidação, reconforto e muitos outros fatores de concórdia, amenização e alento. Como não as revestir de todas as atenções que merecem neste mundo repleto de antagonismos e decepções?

A mulher deve ser colocada nesse papel estelar, firmando-se nele, desde a infância, o que não lhe será difícil, conhecido o fato de trazerem elas, de seu plano astral, toda essa disciplina modelarmente cunhada no seu subconsciente. Intimamente, todas reconhecem, no fundo abstrato do seu sentimento, aquele valor ardente da sua personalidade feminina, com todas as características inerentes.

As meninas de hoje serão as mães de amanhã que irão incutir em seus filhos as lições melhoradas que receberam na infância, para assim se apurarem as condições espirituais da raça. O mundo precisa que as meninas se preparem para o futuro, porque serão elas que, mais tarde, na qualidade de mães, hão de esculpir o caráter dos filhos, os futuros maridos, pais e dirigentes da sociedade nos postos administrativos do país.

Em geral, as meninas nunca pensam nisso, alheias, completamente, à sua verdadeira e elevada missão, a qual precisa ser despertada, avivada e posta em foco. Elas se sentirão honradas, se meditarem sobre a importância das suas atribuições para a remodelação do mundo, quando se tornarem adultas. Repousa em suas mãos uma grande parte do êxito que se espera da aplicação dos princípios cristãos, interpretados racionalmente.

O Racionalismo Cristão está trazendo à luz essa realidade, e procura divulgá-la, na certeza de que milhares de moças desejarão fazer valer os seus dotes e as suas virtudes, na consumação desse grande objetivo.

A vida terrena serve exatamente para isso, ou seja, para que o patrimônio moral de cada ser venha a ser usado, com proveito, na evolução geral da humanidade. Individualmente, ninguém deseja outra coisa, ninguém firmou outro compromisso antes de encarnar, e se aqui não realizou o prometido ou o estipulado, deve-se o risco dessa falha, em parte, à falta de esclarecimento e de preparo dentro do lar, que não estando defendido, tem as portas abertas para a penetração das forças contrárias ao bem, saturadas de mundanismo, de excitações sensualistas e de florificações materializadas.

Urge que todos enveredem pelo caminho da espiritualidade para ganhar em evolução, para se tomarem mais felizes, para merecer as bem-aventuranças que a todos estão reservadas, para alcançarem aqueles ideais que a alma acalenta e que se concretizarão, mas que, pela visão terrena, podem parecer inatingíveis.

Não se deve deixar a criatura absorver inteiramente pela vida material. O ser encarnado é sempre espírito e, portanto, a vida verdadeira é espiritual. Logo, é preciso que, embora na Terra, se procure viver espiritualmente, sejam relegadas a segundo plano as solicitações terrenas, que se apresentam convidativas e empolgantes, especialmente na fase inicial da existência no planeta.

Viver espiritualmente não significa andar o tempo todo a elevar o pensamento para o Alto, mas aplicar na vida prática, no cotidiano, os conhecimentos cristãos, que são de ótima moral, que resolvem as dificuldades terrenas e preparam um mundo melhor.

Não se quer dizer que as crianças não se devem divertir. Longe disso. O divertimento é útil e necessário, desde que se saiba escolhê-lo para se eliminarem os perniciosos. O cristianismo ensina a separar o joio do trigo, ou seja o mal do bem, e assim todos se podem preparar para seguir na vida somente pelo caminho do bem.

Todo ser humano possui um sexto sentido, que é o da percepção — uma faculdade mediúnica ordinariamente mais desenvolvida na mulher do que no homem —, e as meninas devem saber tirar dela todo aproveito, em benefício da sua evolução. Elas sabem, através dessa percepção, o quanto são apreciadas na sua aplicação, no devotamente à vida, no ramo da sua especialidade feminina.

Nos processos futuros da remodelação, pode-se esperar mais das meninas do que dos meninos, porque aquelas convivem mais tempo no lar, em contato permanente com suas mães, onde podem, mais facilmente, estruturar a sua conduta, com base sólida nos ensinamentos da suprema doutrina cristã.

O papel da mulher na vida terrena começa a ser importante na infância, e se faz sentir em todo o curso da vida, até à etapa final, quando avó ou bisavó.

Esta concepção deverá constituir-se numa imagem bem nítida, que todos se devem esforçar por manter permanentemente diante de seus olhos, para que não se esqueçam num só instante, da grandeza do espírito manifestado em corpo de mulher, em moça, em menina, que nas três fases precisa de ajuda e do apoio da contraparte, do ser masculino, para, nesse duelo harmônico e homogêneo, ser glorificada a obra da Natureza. 

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